4. BRASIL 28.11.12

1. A ANTI-MERKEL
2. MARAJS DE JALECO
3. A QUEDA DE UM PREPOTENTE
4. JOAQUIM VAI PEITAR O CONGRESSO?
5. ESTRATGIA DO TAPETO
6. A PIZZA DE CACHOEIRA

1. A ANTI-MERKEL
Em visita  Europa, Dilma Rousseff critica as medidas de austeridade impostas aos pases em crise e se firma como o contraponto  chanceler alem Angela Merkel
Alan Rodrigues 

PARA VOLTAR A ANDAR - Dilma  recebida pelo rei Juan Carlos e prope  Espanha o oposto do que prega Angela Merkel
 
Fotografias funcionam como recortes da realidade. A imagem que ilustra esta reportagem  o retrato pronto e sem molduras dessa afirmao. Captada na ltima semana no Salo dos Tapetes, uma das 2,8 mil divises do Palcio Real de Madri, a foto revela uma Europa rica que caminha com dificuldades. Mais que isso. Ela expe o que o Rei espanhol Juan Carlos disse  presidenta Dilma Rousseff pouco tempo depois de posar para os fotgrafos: Que a Europa precisa da ajuda do Brasil para locomover-se e sair da crise. O receiturio de Dilma contra a recesso, porm, colide frontalmente com as amargas medidas de austeridade fiscal adotadas pela Espanha de Juan Carlos e demais pases europeus como Portugal, Irlanda e Grcia. Para a presidenta do Brasil, o problema econmico da regio  que a Europa rica, leia-se Alemanha, exige dos seus vizinhos pobres a aplicao de solues inadequadas para a crise, como aumentos de impostos e cortes de benefcios e salrios, cujo resultado ser, irremediavelmente, uma recesso brutal. Para Dilma, a Europa s sair do buraco em que se meteu com investimento pblico e estmulos ao crescimento. Ao apresentar a receita desenvolvimentista, em encontro da 22a Cpula Ibero-Americana, que ocorreu em Cdiz, sul da Espanha, Dilma firmou-se na arena global como a anttese da chanceler alem Angela Merkel.
 
Em direo diametralmente oposta ao que tem pregado Merkel, a presidenta brasileira cobrou dos mandatrios presentes ao encontro um horizonte de esperana contra perspectivas de uma dcada de sofrimento, como prev o Fundo Monetrio Internacional (FMI). Temos assistido, nos ltimos anos, aos enormes sacrifcios por parte da populao dos pases que esto mergulhados na crise: redues de salrios, desemprego, perda de benefcios. Mas, se todo o mundo restringe gastos de uma vez, o investimento no chegar. A presidenta aconselhou a Europa a no repetir os erros passados dos governantes da Amrica Latina, que eram refns da poltica ortodoxa implementada pelo FMI. Ns j vivemos isso. O FMI imps um processo que chamaram de ajuste, agora dizem austeridade. Tnhamos de cortar todos os gastos. Asseguravam que assim chegaramos a um alto grau de eficincia. Esse modelo levou a uma quebra de quase toda a Amrica Latina nos anos 80. Dilma fez meno  Cpula de Guadalajara, a primeira ibero-americana, nos anos 90, para lembrar que os governantes de ento, aconselhados pelo FMI, acreditavam erradamente que, apenas com drsticos e fortes ajustes fiscais, seria possvel superar as dificuldades econmicas e sociais. Levamos assim duas dcadas de ajuste fiscal rigoroso tentando digerir a crise da dvida soberana e a crise bancria que nos afetava.

O pronunciamento de Dilma foi considerado por especialistas o mais duro discurso proferido at agora pela presidenta brasileira diante de estadistas europeus. No por acaso, na manh seguinte ao encontro, o jornal El Pas, um dos principais peridicos da Europa e o maior da Espanha, estampava uma entrevista com ela em que a chamou de Dilma, a forte. O jornal espanhol chegou a publicar que ningum se espante caso vierem a classificar a mandatria brasileira como a nova Dama de Ferro. A aluso  ex-primeira-ministra inglesa Margaret Thatcher, no entanto, parece equivocada. Adepta de uma poltica de rigor oramental, Thatcher diminuiu a despesa pblica e praticou uma poltica de austeridade. Estaria, neste caso, afinada com Angela Merkel. O inverso do que prega Dilma Rousseff.


2. MARAJS DE JALECO
Alm dos vencimentos de at R$ 40 mil, mdicos do Senado recebem verba do Congresso para atender servidores em suas clnicas particulares
Josie Jeronimo

 CARO E POUCO EFICIENTE - O hospital do Senado, que ocupa uma rea de 2.500 metros quadrados, no atende nem 5 mil pessoas por ms e custa ao contribuinte R$ 5 milhes por ano
 
H trs anos, em meio ao escndalo dos atos secretos, o presidente do Senado, Jos Sarney, contratou uma auditoria da Fundao Getulio Vargas (FGV) para melhorar a gesto. Em seu relatrio, os auditores propuseram vrias medidas saneadoras. Entre elas, a extino do Departamento Mdico do Senado, considerado pouco eficiente ante a estrutura semelhante  de um hospital de pequeno porte. O relatrio da FGV foi para a gaveta e, em vez de ser extinto, o servio cresceu. Este ano, mais dez mdicos passaram a integrar o corpo de 103 funcionrios concursados. Esses profissionais, que trabalham quatro horas por dia, em plantes montados de acordo com o tempo livre de cada um, embolsam mensalmente uma mdia de R$ 20,9 mil. Em alguns casos, o salrio pode chegar a R$ 40 mil, somado a gratificaes pouco justificveis. No bastasse toda a mordomia, ISTO descobriu que vrios desses mdicos, alm dos vencimentos oficiais, tambm recebem como terceirizados do prprio Senado.
 
A terceirizao funciona da seguinte maneira: uma insuspeita entidade de classe denominada Associao dos Mdicos de Hospitais Privados do Distrito Federal recebe do Senado e repassa os valores para as clnicas onde trabalham os mdicos do prprio Senado. Em 2011, a entidade fechou contrato com a Casa parlamentar no valor de R$ 55 milhes para intermediao no pagamento dos honorrios relativos  prestao de servios complementares  sade, aos beneficirios do plano de assistncia do Senado. O contrato foi feito sem licitao.
 
A Associao funciona numa sala de um centro hospitalar prximo das clnicas onde os mdicos trabalham aps o expediente no Senado. Muitos de seus clientes na rede privada so servidores que eles atendem no Senado e encaminham para uma segunda consulta e determinado tratamento. ISTO visitou as clnicas e acompanhou o entra e sai de pacientes. Ao menos dez dos 48 mdicos em exerccio no Senado tm centros de sade registrados no prprio nome. Desses, seis esto na lista dos conveniados da Associao de Mdicos Privados do Distrito Federal. Um deles  tila Cesetti, servidor do Senado e dono da clnica ProCardaco. O mdico est na lista dos prestadores de servio da Associao. Ele cumpre sua enxuta carga horria no hospital do Senado e atende em sua clnica da Asa Sul. Em outubro, alm do salrio de R$ 42 mil com gratificaes, Cesetti tambm embolsou os lucros da clnica.

LUCRO DOBRADO - A clnica ProCardaco, que recebe como conveniada do Senado, tem como dono o servidor tila Cesetti. Mdico do prprio Senado, Cesetti ganha salrio de R$ 42 mil mensais
 
Os valores que a Associao dos Mdicos de Hospitais Privados paga a ele e a outros colegas no so pblicos, embora o dinheiro que abastea sua conta venha do Senado. Para receber os honorrios, as clnicas encaminham  entidade cheques-consulta que descrevem a especialidade e o valor do atendimento, mas o Senado no tem acesso a esses valores e s presta conta dos recursos globais que repassa  associao. Os beneficiados na transao da subcontratao tambm permanecem ocultos. No mesmo centro clnico da Asa Sul tambm funciona a empresa mdica do servidor Csar Luiz Gonzalez. Assim como tila, Gonzalez recebeu R$ 42 mil em vencimentos do Senado, em outubro, e turbinou o salrio com honorrios recebidos por meio do convnio de sua clnica, a Cardiocare, com a Associao.
 
Duas unidades mdicas dos funcionrios operam no Sudoeste, outro bairro nobre de Braslia. Uma delas pertence ao mdico Cantdio Lima Vieira. Ele tem participao em mais quatro clnicas. Duas delas, a Policlnica Planalto e a Cordis so prestadoras de servio da mesma associao de mdicos contratada pelo Senado. Em outubro, o servidor-empresrio recebeu R$ 20,9 mil de salrio mais R$ 4,8 mil em gratificaes, fora a remunerao das clnicas. H ainda aqueles que mantm contrato direto como prestadores de servio da associao, sem vnculo com empresa, como o mdico Paulo Nery Teixeira Rosa.
 
Uma caracterstica comum aos integrantes do servio mdico do Senado, chamados de marajs nos corredores da Casa,  a antiguidade no servio pblico. A maioria tem mais 15 anos de Casa, com exceo de Gustavo Korst Fagundes, que entrou no concurso deste ano e engorda seu contra-cheque de R$ 16,7 mil com a atividade mdica complementar da associao. ISTO procurou o servidor no servio de atendimento da Casa e foi informado pelas atendentes do hospital do Senado que o urologista d consulta das 9h s 12h, diariamente. Fagundes  scio da clnica Servio Brasiliense de Urologia. Em maro de 2011, a Casa assinou contrato no valor de R$ 80 mil com a clnica de Fagundes. O valor tambm  pago por meio dos chamados cheques-consulta, emitidos de acordo com a demanda de beneficirios do plano de sade do Senado.

O BENEFICIRIO - O mdico Cantdio Lima Vieira  scio de duas clnicas que prestam servio ao Senado
 
Em nota, o Senado confirma que possui alguns servidores, na rea mdica de especializao, que exercem atividade laboral em clnicas conveniadas com o SIS, sem sobreposio da jornada de trabalho. Diz ainda a nota que os profissionais de sade do Servio Mdico do Senado esto impedidos de atender pacientes, pelo SIS, em clnicas particulares.
 
Quem visita o Departamento Mdico do Senado encontra um local sem filas. Segundo a auditoria da FGV de 2009, a mdia de atendimentos no chega a cinco mil por ms. Uma UPA, que possui metade do corpo de funcionrios, atende 25 mil pacientes no mesmo perodo. O hospital do Senado ocupa uma rea de 2.500 metros quadrados e sua estrutura custa ao contribuinte R$ 5 milhes por ano. Pelo estudo, o grosso da demanda dos mais de 25 mil beneficirios do plano de sade da Casa acaba sendo suprido pela rede hospitalar privada, paga com o fundo do Sistema Integrado de Sade do rgo legislativo. O maior sintoma da ineficincia do servio mdico  o volume de gastos com reembolso de despesas dos parlamentares com hospitais particulares. Os senadores no utilizam os servios do hospital da Casa e apresentam R$ 60 milhes em notas de ressarcimento por ano. O oramento para despesas mdicas dos parlamentares, servidores, aposentados e dependentes chega a R$ 105 milhes anuais.


3. A QUEDA DE UM PREPOTENTE
O secretrio que negava a onda de violncia em SP e os ataques do crime organizado deixa o comando da polcia. Ser que agora o governador Alckmin consegue dar tranquilidade  populao?
Natlia Martino

 DISPUTA - Ferreira Pinto comprou briga com a Polcia Civil ao retirar da corporao a corregedoria
 
As notcias dirias de homens encapuzados em motocicletas que atiram na calada da noite contra pessoas indefesas ou PMs viraram rotina em So Paulo. Nas ltimas semanas, a capital paulista passou a registrar cerca de dez assassinatos por noite. Todas as manhs contam-se as vtimas da guerra surda entre o crime organizado e a polcia. Em outubro, houve 176 homicdios, um aumento de 114% em relao ao mesmo ms do ano passado. Apesar da crescente violncia, o ento secretrio de segurana pblica Antnio Ferreira Pinto negava qualquer crise e relutou em aceitar ajuda federal para lidar com o problema. Na semana passada, porm, ele e sua prepotncia foram derrotados. Ferreira Pinto deixou o cargo para o qual o governador Geraldo Alckmin indicou Fernando Grella Vieira, ex-procurador-geral de Justia.Ligado  Polcia Militar, Ferreira Pinto comprou uma briga com a Polcia Civil ao retirar a corregedoria da entidade e cham-la para si e ao reforar o papel do Batalho de Choque Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) na apurao de crimes.
 
Pessoas prximas do ex-secretrio dizem que, por conta dessas medidas, a Polcia Civil estaria fazendo uma espcie de operao tartaruga nas investigaes. Alm disso, tambm foi enfraquecido com a informao de que uma banda podre da PM teria vendido a bandidos do Primeiro Comando da Capital (PCC) uma lista com o nome e endereo de 100 policiais. A corregedoria da PM averigua o caso.

TAREFA - Fernando Grella chega com a misso de conter o crime organizado e selar a paz entre as polcias civil e militar
 
Por isso, a misso de Grella no  fcil. Em seu discurso de posse, ele reconheceu que a situao atual foge da normalidade e que o crime organizado precisa ser combatido. Isso ser feito com planejamento, inteligncia e capacidade de atuao concorrente em todos os entes que compem a Federao, afirmou. Um dos desafios do novo secretrio ser enfrentar os supostos grupos de extermnio formados por policiais militares. Demissionrio, o delegado-geral da Polcia Civil do Estado de So Paulo, Marcos Carneiro Lima, afirmou que os indcios de envolvimento de policiais em alguns dos crimes recentes so muitos. Segundo ele, em pelo menos um dos homicdios a vtima teve sua ficha criminal pesquisada pela polcia pouco antes do assassinato. Bandido mata e foge porque tem medo de ser pego. Matar vrias pessoas em um mesmo lugar e depois ainda eliminar provas no  comum, disse Carneiro.
 
Para resolver essa questo,  necessrio fortalecer os servios de inteligncia, historicamente exercidos pela Polcia Civil, e conter o uso da fora pela PM. Uma das grandes crticas ao ex-secretrio de segurana pblica foi exatamente ter seguido o caminho inverso. No discurso de despedida, de meia hora, Ferreira Pinto deixou clara sua opo. Sempre prestigiei sim, e me orgulho disso, o trabalho da Rota, declarou. Para Theodomiro Dias Neto, professor da Faculdade de Direito da Fundao Getulio Vargas (FGV) e especialista em segurana pblica, o novo secretrio tem grandes desafios para conseguir o respeito da populao. No caso da PM,  preciso controlar o uso da fora por parte da corporao. No caso da Polcia Civil,  necessrio combater a corrupo. O principal passo nesse caminho  a escolha dos comandos das polcias, afirma.

Outra tarefa espinhosa  a conciliao e a integrao de foras das polcias civil e militar. De acordo com Olmpio Gomes, major da reserva da PM e deputado estadual, a tenso entre as duas instituies acirrou-se principalmente depois de 16 de outubro de 2008, quando os militares impediram uma passeata dos civis que estavam em greve e caminhavam em direo ao Palcio dos Bandeirantes, sede do governo paulista. Houve embate e tiroteio. Desde ento, as rixas s aumentaram, mas elas no sero resolvidas com reunies de lderes e festas de confraternizao, diz ele. Um dos motivos para a escolha de Grella foi seu temperamento conciliador que, agora, ser posto  prova. Ele tem a vantagem tambm de contar com mais interlocuo junto  sociedade civil. Acho que podemos esperar mudanas em direo a uma gesto mais moderna e eficiente. Estou otimista, diz Luciana Guimares, diretora do Instituto Sou da Paz.


4. JOAQUIM VAI PEITAR O CONGRESSO?
Pedir a cassao dos deputados condenados pelo mensalo  o primeiro embate de Joaquim Barbosa no comando do STF. O Congresso pressiona para salvar os polticos, mas o novo presidente da corte se diz determinado a mudar a Justia
Izabelle Torres

 NOVO ESTILO - Joaquim Barbosa quer que o STF tenha a palavra final sobre a perda de mandato dos polticos
 
Na tarde da quinta-feira 22, cerca de duas mil pessoas estiveram no Supremo Tribunal Federal para assistir  posse do ministro Joaquim Barbosa na presidncia da corte. No ocorria ali apenas uma troca de comando. A solenidade era a representao de um avano da sociedade brasileira, com a ascenso do primeiro negro ao mais importante posto do Judicirio. Mas as cerimnias tambm estavam carregadas de uma forte expectativa institucional: a de que soprem novos ares sobre a Justia do Pas. Ou uma verdadeira ventania, a julgar pela determinao, o estilo corrosivo, o ar desafiador e o rigor com que Barbosa tem atuado no julgamento do mensalo. Ningum duvida. Joaquim Barbosa no deixar passar em vo seus dois anos  frente do STF. J no discurso de posse, ele criticou a desigualdade da Justia. Defensor de que os juzes no podem ser indiferentes aos valores e anseios sociais e dono de um perfil mais combativo, em contraste com a diplomtica gesto do antecessor, ministro Carlos Ayres Britto, Barbosa pretende que a Justia assuma um novo papel. Mesmo que essa mudana toda se reflita sobre o relacionamento com os demais poderes da Unio.
 
Pelos planos de Barbosa, o primeiro  e talvez mais explosivo  captulo dessa transformao ocorrer com o Congresso Nacional. A presena pfia de polticos na cerimnia de posse serviu de termmetro para os embates que esto por vir. J nos prximos dias, o novo presidente do STF pretende conduzir uma votao para retirar do Parlamento a prerrogativa de cassar seus integrantes mesmo depois das decises definitivas do STF. A ideia do ministro  que a perda do mandato deve ser imediata aps a concluso do julgamento. Caso o STF passe a ter a prerrogativa sobre a cassao dos mandatos de parlamentares, a medida atingir de imediato os deputados Valdemar Costa Neto (PR-SP), Joo Paulo Cunha (PT-SP) e Pedro Henry (PP-MT), condenados no processo do mensalo. Outro que pode ser afetado diretamente  o ex-presidente do PT Jos Genoino, que espera assumir uma cadeira na Cmara no lugar do deputado Carlinhos Almeida (PT-SP), eleito para a Prefeitura de So Jos dos Campos (SP). Tambm perderia o mandato o deputado Natan Donadom (PMDB-RO), condenado em 2010 pelo STF. A corte decidiu que ele deveria cumprir 13 anos e quatro meses de priso por ter cometido os crimes de peculato e formao de quadrilha, mas o deputado est solto e segue exercendo o mandato parlamentar graas a recursos no julgados. Ainda no est claro, entretanto, qual ser a reao do Congresso  perda de prerrogativa, tradicionalmente to cara aos polticos.
 
Para a especialista Margarida Lacombe, do Observatrio da Justia, Barbosa pode decidir sobre esta questo j ao final do julgamento do mensalo. Ele est em um colegiado, no dar a palavra final, mas pode incluir o debate na pauta e elaborar uma jurisprudncia para casos posteriores , diz. Em outra sinalizao sobre quais sero suas prioridades, Barbosa pediu a assessores um levantamento sobre as aes de corrupo e improbidade administrativa que esto paradas na corte. So quase 500, envolvendo parlamentares e gestores pblicos. Assim, o ministro demonstra que ir priorizar as aes contra polticos acusados de malfeitos. Ele tambm quer que os processos sejam pblicos, acabando com a publicao apenas das iniciais dos investigados.

PRONTO PARA NEGOCIAR - O diplomata Slvio Albuquerque ser um dos homens fortes de Joaquim Barbosa, empossado na quinta-feira 22 durante concorrida cerimnia no STF

Antes mesmo de assumir o posto oficialmente, Barbosa confidenciou a pessoas prximas que seu maior desejo  adotar estratgias capazes de influenciar a forma como as instituies tratam o dinheiro pblico. Hoje os polticos so julgados pelos seus prprios pares e tribunais de primeira instncia conduzem seus processos, para Joaquim, de forma mais lenta do que o aceitvel. Ele quer mudar esse quadro. Acredita que, dessa maneira, o Supremo estar mais prximo dos anseios da sociedade, como deixou claro no discurso de posse que durou 17 minutos. Quero uma Justia clere, efetiva e justa, sem firulas, sem floreios, sem rapaps, disse Barbosa, testemunhado pela presidenta Dilma Rousseff e personalidades do meio artstico como os atores Tas Arajo, Lzaro Ramos e Milton Gonalves, o cantor Djavan, a apresentadora Regina Cas e o tricampeo mundial de Frmula 1 Nelson Piquet.
 
Outro embate de Joaquim Barbosa ser travado com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). A amigos, Barbosa afirmou que uma de suas primeiras medidas  frente do Conselho Nacional de Justia (CNJ) ser enfrentar a advocacia de filhos e cnjuges de magistrados de tribunais superiores. Na condio de presidente do colegiado, o ministro vai tentar convencer os 15 conselheiros a proibir essas prticas. Entre os atingidos pelas mudanas na regra esto filhos do atual corregedor do CNJ, ministro Francisco Falco. A OAB, no entanto, deve reagir. 
A busca por maior independncia dos magistrados no julgamento das aes  considerada um desafio por Barbosa, que dedicou ao tema boa parte de seu discurso de posse.  preciso reforar a independncia do juiz. Afast-lo desde o ingresso na carreira das mltiplas e nocivas influncias que podem paulatinamente minar-lhe a independncia, afirmou o presidente do STF. Os demais ministros fizeram coro: Rogamos que lute em prol de um Judicirio probo, independente, ativo e legitimado, declarou o ministro Luiz Fux, se dirigindo a Barbosa. Ao mesmo tempo que lutar pela independncia dos magistrados, Barbosa promete transparncia total no exerccio das funes. De acordo com um de seus assessores, o novo presidente do STF pretende abrir na internet os gastos dos tribunais e salrios de juzes.

O novo presidente do STF teve, porm, a prudncia de se preocupar em se cercar de pessoas capazes de abrir canais de comunicao com outros rgos, de negociar em seu nome com os colegas e pensar formas eficientes para gerir o oramento da Casa, inicialmente previsto para R$ 520 milhes em 2013. No por acaso ele colocou um ministro do Itamaraty para coordenar o gabinete da presidncia: Slvio Albuquerque. O diplomata  especialista em temas sociais, especialmente sobre negros, e conheceu Barbosa quando sua ONG estava em atividade. Elogiado pela forma suave como conduz conversas e negociaes, caber a ele a funo de marcar audincias e receber pessoas em nome do presidente.
 
Para lidar com os servidores e com a administrao da Casa, Barbosa escalou um tcnico do Tribunal de Contas da Unio especializado em gesto de pessoal. A misso de Fernando Camargo ser evitar os desgastes do presidente com os quase dois mil funcionrios da corte  espera de decises corporativistas, que Barbosa no pretende tomar. Do antigo gabinete, o ministro levou poucos dos seus funcionrios. A primeira a ser escolhida para acompanh-lo foi Flvia Beatriz Eckhardt, amiga pessoal desde a dcada de 80 e ex-orientanda de mestrado do atual presidente da corte. Agora, ela ser a secretria-geral do Supremo. Disposto a tornar mais transparente e eficiente sua administrao, Barbosa convidou para a Secretaria de Gesto Estratgica Patrcia Landi, ex-brao direito do ministro Ricardo Lewandowski no Tribunal Superior Eleitoral. Patrcia foi a responsvel por prmios de eficincia concedidos ao gabinete de Lewandowski quando ele integrava a corte eleitoral.
 
A equipe escolhida para administrar o STF  discreta e foi orientada a evitar a imprensa e o vazamento de informaes internas. No  para menos. Afinal, a agenda que o STF tem pela frente est cheia de julgamentos emblemticos como o mensalo mineiro, a diviso dos royalties do petrleo e at as novas regras para o setor eltrico. Estes so temas que devem desaguar na corte nos prximos meses e entusiasmam Joaquim Barbosa. Ele est disposto a alinhar o Supremo com a opinio pblica e a tirar o sono dos polticos adeptos de prticas de corrupo. 


5. ESTRATGIA DO TAPETO
Goleiro Bruno aposta na confuso e consegue adiar seu julgamento para 2013 enquanto Macarro implica o ex-chefe na morte de Eliza Samdio
Flvio Costa

 MANOBRAS - Bruno trocou sucessivas vezes de advogado e, assim, conseguiu adiar seu julgamento
 
A confuso como mtodo de defesa. A estratgia utilizada, com xito, pelos advogados dos rus transformou, na semana passada, em chicana um dos jris mais esperados do Pas: o do desaparecimento e suposto assassinato de Eliza Samdio, ex-amante do goleiro Bruno Fernandes de Souza, acusado de ser o mandante do crime. Nas sesses marcadas pelo caos no Tribunal de Contagem, na Grande Belo Horizonte (MG), houve at a paralisao por conta de um boato sobre uma tentativa de suicdio do jogador na priso. As manobras dos defensores, como o abandono do plenrio e vrias trocas de advogados, adiaram o julgamento de trs dos cinco acusados. Voltam a jri em maro de 2013 o prprio Bruno, o ex-policial Marcos Aparecido dos Santos, o Bola, apontado como executor do homicdio, e Dayanne Rodrigues, ex-mulher do jogador. O fato mais surpreendente da semana foi o depoimento do ru Luiz Henrique Ferreira Romo, o Macarro. Ele relatou sua participao no sequestro de Eliza e implicou Bruno, o ex-amigo e ex-chefe, como autor intelectual da morte da jovem, cujo corpo permanece desaparecido h dois anos e cinco meses.
 
Abandono de jri  uma estratgia comum entre os advogados brasileiros, segundo especialistas ouvidos por ISTO. Entende-se que  benfico para o acusado ser julgado sozinho ou com menor nmero possvel de rus, afirma o criminalista Henrique Baptista, especialista em direitos fundamentais pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Outra vantagem  que os advogados podem recolher informaes preciosas em um julgamento de ru anterior ao do seu cliente. Foi nisso que apostou Bruno. No segundo dia de julgamento, o goleiro resolveu destituir seus dois defensores, Rui Pimenta e Francisco Simin, que, por sua vez, tambm representavam Dayanne Rodrigues, ex-mulher dele. Obteve a destituio do primeiro, mas no conseguiu o mesmo sucesso em relao ao segundo. Assim, Dayanne tambm teve seu julgamento adiado para maro. No dia seguinte, novamente Bruno trocou Simin pelo advogado Luiz Adolfo, que alegou desconhecer o processo e pediu tempo para se preparar. Com isso, o goleiro tambm teve seu julgamento adiado. Apenas Macarro e Fernanda Castro, ex-namorada do jogador, foram julgados. Foi uma atitude clara no sentido de desmembrar o processo, j que a primeira no havia dado certo, afirma a criminalista Roselle Soglio.

DEPOIMENTO - Sentindo-se trado por Bruno, Macarro disse que o goleiro levou Eliza Samdio para morrer
 
O depoimento de Macarro foi a maior surpresa do julgamento: ele relatou como, a mando de Bruno, levou Eliza do Rio de Janeiro para o local indicado pelo goleiro em Belo Horizonte, onde teria entrado em um carro preto para nunca mais ser vista. Ele ia levar ela para morrer, declarou, isentando-se, no entanto de responsabilidade. Sentindo-se trado por Bruno, que numa carta divulgada para a imprensa pedia ao ento amigo para assumir a culpa pelo crime, Macarro afirmou que tentou demov-lo, sem sucesso, da ideia de matar Eliza. Bruno acabou com minha vida, disse Macarro.


6. A PIZZA DE CACHOEIRA
Relatrio final da CPI que investigou o bicheiro Carlinhos Cachoeira e seu envolvimento com autoridades no traz avanos e comisso termina com 638 requerimentos na gaveta
Josie Jeronimo

 MUITO HOLOFOTE, POUCO RESULTADO - Na quarta-feira 21, Carlinhos Cachoeira deixava a priso na Papuda, em Braslia, de carro. No mesmo dia, a CPI (abaixo) que leva o nome do contraventor divulgou um relatrio final sem novidades

Um contraventor reincidente, um senador que liderava a bancada da tica e uma empreiteira de porte nacional. Comeou assim o escndalo envolvendo o bicheiro Carlinhos Cachoeira e seus tentculos no poder pblico. Em abril, aps a divulgao de escutas telefnicas pela Polcia Federal, a Cmara e o Senado instalaram a CPI mista que deveria avanar alm das apuraes feitas pela PF nas operaes Monte Carlo e Vegas. Com Cachoeira preso e o senador Demstenes Torres acuado, a CPI s trabalhou para acalmar a voz das ruas, que pedia a cabea do parlamentar amigo do bicheiro. Trs meses depois da criao da comisso, o senador foi cassado e os trabalhos comearam a fazer gua. As informaes sobre os tentculos da empreiteira Delta em rgos pblicos e sua influncia junto a autoridades cresciam a cada dia, mas a maioria dos integrantes da comisso decidiu ignorar as evidncias. Depois de firmarem um pacto de no agresso, os parlamentares esvaziaram a CPI. A promessa de pizza foi concretizada na quarta-feira 21, no relatrio do deputado Odair Cunha (PT-MG).
 
Os trabalhos da comisso terminaram e 638 requerimentos de convocao e quebras de sigilo nem sequer foram analisados. O esperado documento final do relator chegou sem informaes novas sobre a teia de corrupo de Cachoeira, envolvendo parlamentares, integrantes do Judicirio e gestores municipais. O desfecho da comisso ocorreu no mesmo dia em que Cachoeira foi solto do presdio da Papuda, em Braslia, onde ficou encarcerado por nove meses. O relator no foi econmico nos indiciamentos. Apontou 34 pessoas que estariam envolvidas com Cachoeira em seu parecer. Muitos dos nomes, no entanto, j constavam de denncias do Ministrio Pblico. De novo no relatrio est o indiciamento de algumas autoridades e o pedido de investigao contra o procurador-geral da Repblica, Roberto Gurgel. O governador de Gois, Marconi Perillo, o ex-senador Demstenes Torres e o deputado Carlos Leria (PSDB-GO) abrem a lista de 12 acusados de usar a influncia de cargos pblicos para obter vantagens do esquema do contraventor. Na quarta-feira 21, Perillo disse ser vtima de perseguio e anunciou que ir processar o relator.

EM FAMLIA - Cachoeira comemorou a liberdade ao lado da mulher, Andressa Mendona
 
O pfio resultado de quase oito meses de trabalho, assessorado por centenas de servidores, constrangeu o prprio relator, que pediu sugestes do grupo para alterar o relatrio e adiou a votao para a prxima semana. Espero que corrijam, ainda h tempo. Quase meio bilho foi repassado a empresas laranjas e a CPMI s quebrou o sigilo de 20% delas, criticou o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP). 
 
Odair vai dedicar o fim de semana para alterar os pontos mais problemticos de seu texto. As omisses de temas importantes  investigao e as falhas da comisso ficaram mais do que evidentes no relatrio de cinco mil pginas que no traz informaes sobre contas do contraventor no Exterior, sobre o esquema da Delta no Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), movimentaes financeiras das empresas laranjas e a influncia da quadrilha no Judicirio.

